A jornada do herói e o poder do propósito

Você sabe como a maioria dos filmes de Hollywood são feitos? Pois bem, eles se baseiam nos estudos de Joseph Campbell, basicamente destilados em obras como “O Poder do Mito”.

As pesquisas de Campbell mostram que todas as histórias do mundo possuem mais coisas em comum do que parecem ter. E em um de seus livros, denominado “O Heróis de Mil Faces”, ele apresenta 19 etapas em comum das mais variadas histórias e mitos contados ao longo do tempo.

Mais tarde, o escritor Christopher Vogler em seu livro “A Jornada do Escritor”, sintetizou as 19 etapas em 12, adaptando-as à criação de roteiros para a indústria cinematográfica. A seguir, explicamos cada uma das etapas relacionando-as a um trecho da história pessoal de um dos maiores jogadores de futebol do Brasil, o “Ronaldo Fenômeno”:

  1. Mundo comum: Em 2002, Ronaldo estava desacreditado pelos brasileiros, pois em 1998 estava no grupo que havia perdido a Copa do Mundo de maneira vexatória para a França;
  2. Chamado à aventura: Ronaldo é convocado para a Copa do Mundo de 2002;
  3. Recusa do chamado: Nós não vimos essa parte da história. Mas pode ser que tenha passado pela cabeça de Ronaldo a possibilidade de não participar e recusar a convocação para a Copa de 2002. Pode ser que ele tenha sofrido, mesmo que por alguns instantes, certo receio de falhar outra vez. Isso caracteriza a recusa do chamado;
  4. Encontro com o mentor: Nos bastidores, psicólogos, ou mesmo o técnico Luís Felipe Scolari, podem ter motivado o Ronaldo a participar da Copa de 2002;
  5. Travessia do primeiro limiar: Ronaldo aceita a convocação e se une ao restante do grupo;
  6. Testes, aliados e inimigos: Ronaldo encontra velhos amigos, iniciam-se os treinamentos e as primeiras partidas contra adversários como Turquia, China e Costa Rica;
  7. Aproximação da caverna oculta: A seleção brasileira passa para a fase de mata-mata. A tensão aumenta, mas o Brasil se aproxima de mais uma final após passar pela Bélgica, Inglaterra e Turquia;
  8. Provação: A seleção brasileira chega à final contra a Alemanha. É a provação suprema para Ronaldo que, quatro anos antes, na final contra a França, havia tido convulsões. Dá para imaginar a tensão dentro dos vestiários. A possibilidade da derrota pode ter tido espaço na cabeça do “Fenômeno”. Para vencer, é preciso dar a vida. Morrer, literalmente. Essa é a característica da provação suprema nas histórias;
  9. Recompensa: A seleção brasileira vence a Copa do Mundo de 2002 e os jogadores recebem a taça e o carinho dos torcedores;
  10. Caminho de volta: Na volta, os jogadores desfilam nos carros do Corpo de Bombeiros. Ronaldo está entre eles;
  11. Ressurreição: Ronaldo ressuscita simbolicamente. Isto é, ele estava desacreditado antes da Copa, mas depois de vencer em 2002, passa para a história como um dos grandes jogadores de futebol do mundo;
  12. Retorno com o elixir: Ronaldo e os demais jogadores dão entrevistas, dizem como a conquista foi possível, explicam as etapas pelas quais passaram, enfim, dizem qual foi o antídoto empregado na superação do descrédito de antes da copa.

Nesse sentido, a importância do propósito é levar a pessoa para algum lugar bem específico. O propósito do Ronaldo, por exemplo, era vencer a Copa do Mundo. Uma vez que o propósito tenha sido identificado, resta motivar-se para a sua conquista. Esse é o efeito produzido, por exemplo, pelas palestras motivacionais. E os preletores dessas palestras são, geralmente, pessoas que já passaram por situações parecidas e venceram, e terminaram se transformando em mentores.

Recentemente vimos a despedida do Ronaldo “Fenômeno” dos campos. Depois de percorrer todo o caminho de um jogador de futebol, Ronaldo diz que pretende direcionar a carreira de outros atletas de ponta por meio de sua agência de publicidade, a 9INE. Dessa forma, o fenômeno fecha o ciclo de Campbell ao se tornar um mentor, depois de ter percorrido a trilha dos heróis portando propósitos bem definidos.

Eis, senhoras e senhores, o poder de um propósito.

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